FLAUTA DOCE – INCLUIR OU NÃO OS INICIANTES NAS APRESENTAÇÕES?

Atualizado: 3 de Ago de 2019

Prof. Dr. Theógenes Eugênio Figueiredo

Curso de Gestão da Música Eclesiástica com Licenciatura em Música da

Faculdade Batista do Rio de Janeiro - FABAT


Uma maneira de motivar os aprendizes dos diversos instrumentos musicais nas suas primeiras semanas de aprendizagem é incluí-los nas apresentações de seu grupo o mais rápido possível. Mas, como fazer isso?

Antes de responder a essa questão é preciso saber que as metodologias de ensino-aprendizagem de instrumentos musicais têm sido aprimoradas ao passar dos anos. O senso comum de que o aprendiz precisa comprovar um certo nível de habilidade no instrumento para participar de uma apresentação das flautas em conjunto com os companheiros em nível adiantado não é mais aceitável.

Hoje, a metodologia do Ensino Coletivo de Instrumentos Musicais(ECIM) se encontra disponível para ajudar a fazer essa inclusão e acabar com esse senso comum.


- BREVE HISTÓRICO E ALGUNS ASPECTOS METODOLÓGICOS DO ENSICO COLETIVO DE IINSTRUMENTOS MUSICAIS (ECIM)


O ensino coletivo de instrumentos musicais tem sido realizado há vários anos no Brasil, tendo como pioneiros Alberto Jaffé (anos de 1970), no ensino coletivo de cordas, e José Coelho de Almeida[1], no ensino coletivo de sopros. A utilização dessa metodologia não abrange somente a área do ensino instrumental – piano teclado, violão, violoncelo, entre outros. Ela abrange aspectos mais amplos, como a iniciação musical, a formação integral do ser humano e a democratização do acesso ao ensino musical inclusivo e transformador.[2]

A interação entre os aprendizes que se encontram nos diversos níveis é um dos princípios que regem essa metodologia: os alunos devem ser participativos, interagindo uns com os outros durantes as aulas e ensaios para que ocorra o compartilhamento de ideias. Essa maneira de ensinar se torna agradável ao aluno porque ele

[...] percebe que suas dificuldades são compartilhadas pelos colegas, evitando desestímulos; o aluno se sente, logo no início dos estudos, em uma orquestra ou num coral e ao conseguir executar uma peça a sua motivação aumenta; o aspecto lúdico do ensino coletivo [...] se torna uma poderosa força, auxiliando um aprendizado seguro e estimulante; e por fim a qualidade musical no estudo em grupo é muitas vezes superior se comparado ao individual, contribuindo para que o processo de aprendizagem seja acelerado.[3]

A professora Flavia Maria Cruvinel, uma das pioneiras na metodologia do ensino coletivo de instrumentos musicais, afirma que essa metodologia proporciona

a melhora na disciplina, na organização, na cooperação, na solidariedade, no respeito mútuo, na concentração, no desempenho técnico-musical, na consciência corporal, na assimilação e acomodação dos conteúdos, na interação entre os alunos despertando a socialização, a motivação, entre outros; o desenvolvimento do repertório de maneira mais rápida; o desenvolvimento do ouvido harmônico do aluno; a economia de tempo, já que se trabalha os mesmos aspectos e princípios instrumentais e/ou musicais com todos os iniciantes; o maior rendimento; a baixa desistência por parte dos alunos; melhora da autoestima, maior estímulo, desinibição, ou seja, a mudança de comportamento dos alunos envolvidos no processo de aprendizagem em grupo.[4]

Com todos esses benefícios, por que não utilizar essa metodologia? Para utilizá-la é preciso conhece-la e buscar meios para coloca-la em prática. Mas, como pode ser realizado o ECIM? Uma das primeiras dificuldades que se apresentam é o repertório e esse é o assunto do tópico que segue.


- UM EXEMPLO DE REPERTÓRIO PARA FLAUTA DOCE QUE POSSIBILITA A INCLUSÃO DOS INICIANTES NA APRESENTAÇÃO DO GRUPO


A flauta doce é um instrumento de fácil aquisição e manipulação e, por isso, tem sido utilizada como meio de musicalização de crianças e adultos. Não somente para esse fim, na realidade a flauta doce se encontra presente “em grande parte dos contextos educacionais [...] – projetos sociais, escolas de educação básica, escolas de música, oficinas, graduação (Licenciaturas em Música)”[5]e o seu aprendizado se dá em grandes ou pequenos grupos. Em resumo, a flauta doce exerce uma dupla função, uma, a função de instrumento de iniciação musical; outra, a função de instrumento artístico, utilizada em concertos de grupos de diversas formações.

O ensino da flauta doce se depara com uma metodologia que propõe a aprendizagem, no primeiro momento, das notas digitadas pela mão esquerda (sol, lá, si, dó, ré) e somente quando essas notas estiverem aprendidas é que, no segundo momento, se proporá ao aprendiz atividades com as notas digitadas com a mão direita (fá, mi, ré, dó). Esse paradigma, entretanto, pode ser “quebrado”, desde que se tenha uma proposta de ensino-aprendizagem que seja inclusiva, o que aconteceu com a música Buscai primeiro o reino de Deus, na qual os iniciantes tocando as notas lá, sol, fá e mi participaram dos ensaios e da apresentação da peça.

Sobre os ensaios, há a necessidade de separar os iniciantes em uma classe única, por um período de tempo, dentro do tempo total de ensaio, para fazer os ajustes necessários sobre a digitação das notas, a posição das mãos, a posição do corpo, o sopro, a articulação, a duração das notas etc. Depois desse tempo separado, todos iniciantes participaram do ensaio geral, com os demais flautistas. Nos ensaios sempre há a divisão dos aprendizes em pelo menos três níveis: iniciantes 1 – aqueles que estão ingressando ou ingressaram a pouco tempo na aprendizagem da flauta doce; iniciantes 2 – aqueles que passaram pela primeira fase da aprendizagem; nível 3 – aqueles que já executam a flauta doce com desenvoltura.

A questão maior que se apresenta para a inclusão/participação dos aprendizes nos ensaios e nas apresentações do grupo é a de encontrar um repertório que contemple apenas algumas notas e figuras musicais de fácil realização, ou, falando de outra maneira, um repertório que contenha uma pauta específica para os iniciantes, com poucas notas e uma rítmica de fácil realização.

Para resolver essas duas questões, no caso da música Buscai primeiro o reino de Deus,foi necessário adicionar à partitura uma pauta específica para os iniciantes, na qual foi construída uma linha melódica contemplando essas duas questões: somente as notas mi, fá, sol, lá e as figuras semínima, mínima e semibreve

A figura abaixo mostra parte da partitura.



- CONCLUSÃO


A experiência com o Ensino Coletivo de Instrumentos Musicais, no caso, a flauta doce, foi um sucesso, pois conseguiu-se incluir todas as crianças iniciantes nesse instrumento, tanto nos ensaios quanto nas apresentações. Outras peças musicais tiveram uma pauta acrescentada com notas e ritmos direcionados aos iniciantes, para que houvesse continuidade nessa metodologia de ensino-aprendizagem.

Segue em anexo a partitura da música Buscai primeiro o reino de Deuse um vídeo da apresentação dessa música com o grupo de flautas da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro.


Referências bibliográficas


[1]“Responsável por sua difusão [difusão do ensino coletivo de sopros] em São Paulo, formando várias bandas, instrumentistas e professores que criaram novas práticas pedagógicas que resultaram em novos métodos, como é o caso do ‘Da Capo’ de Joel Babosa [...].” ENECIM. Anais do VI Encontro Nacional de Ensino Coletivo de Instrumento Musical. Página 15. 25 a 28 de novembro de 2014. Salvador. BA. Disponível no endereço eletrônico https://enecim.emac.ufg.br/up/888/o/Anais_do_VI_ENECIM.pdf. Acessado em 27 Abr 2019.

[2]CRUVINEL, Flavia Maria. O ensino coletivo de instrumentos musicais na educação básica: compromisso com a escola a partir de propostas significativas de ensino musical. Disponível no endereço eletrônico https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&ved=2ahUKEwjZ8IGBxfDhAhUYH7kGHQzfAYgQFjAAegQIBBAC&url=http%3A%2F%2Fwww.ufrgs.br%2Fmusicalidade%2Fmidiateca%2Fpraticas-musicais-vocais-e-instrumentais%2Fpraticas-instrumentais%2Fo-ensino-coletivo-de-instrumentos-musicais-na-ed.-basica%2Fat_download%2Ffile&usg=AOvVaw15gmOG83Bh5fXLSyZHqurb Acessado em 27 Abr 2019.

[3]OLIVEIRA, 2002, apud CRUVINEL, 2005, p. 78. In LIMA, Walter Cláudio de Brito. Ensino coletivo de violão no Colégio Salesiano São José. Monografia. UFRN, Escola de Música, 2017. Página 14. Disponível no endereço eletrônico https://docplayer.com.br/33564045-Universidade-federal-do-rio-grande-do-norte-unidade-academica-especializada-escola-de-musica-curso-de-licenciatura-em-musica.html. Acessado em 1 Mai 2019.

[4]CRUVINEL, Flavia Maria, apud MACHADO, André Campos. O ensino coletivo de instrumentos musicais nos Conservatórios Mineiros. In Ouvirouver. Revista dos Programas de Pós-graduação do instituto de Artes da Universidade Federal e Uberlândia. V.12, n.2 (2016). Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, Programas e Pós-Graduação do Instituto de Artes. Página 313. Disponível no endereço eletrônico https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=15&ved=2ahUKEwj_hbCDoPHhAhX_IbkGHTkRB4g4ChAWMAR6BAgFEAI&url=http%3A%2F%2Fwww.seer.ufu.br%2Findex.php%2Fouvirouver%2Farticle%2Fview%2F36975%2F19542&usg=AOvVaw26U8f4VZDAQtXxHlcL2iah. Acessado em 27 Abr 2019.

[5]IVO, Laís Figueiroa. A prática coletiva da flauta doce no contexto do ensino superior: uma investigação de três grupos musicais ligados à universidades. Comunicação. XXII Congresso Nacional da Associação Brasileira de Educação Musical. Natal, RN. Outubro de 2015. Disponível no endereço eletrônico http://abemeducacaomusical.com.br/conferencias/index.php/xxiicongresso/xxiicongresso/paper/viewFile/1499/407, acessado em 1 Mai 2019.

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